terça-feira, 21 abril 2026
SOFRIMENTO

Abandono de idosos preocupa especialistas em saúde mental na região

Até o momento, a TV TODODIA noticiou dez casos de negligência e violência a idosos em 2026
Por
Nathalia Tetzner
abandono
Alterações de humor ou comportamento podem estar relacionadas à perda de funções cognitivas. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A casa cresce à medida que se esvazia. Menos passos, menos vozes, mais silêncio. Para muitos idosos, a sensação é de que o mundo acelerou e os deixou para trás. 

Enquanto a violência física choca a sociedade, o sofrimento da mente é mudo. Ele não deixa hematomas aparentes, mas isola e, muitas vezes, é esse isolamento que abre as portas para o descaso e os maus-tratos. 

Estudo científico
Na nossa região, um estudo da Unicamp traça os paralelos entre sintomas neuropsiquiátricos e comprometimentos cognitivos leves, ou seja, como alterações de humor ou comportamento podem estar ligadas às primeiras falhas de memória e raciocínio.

O autor do artigo científico, que levou em conta uma amostra da população acadêmica atendida pelo Cecom (Centro de Saúde da Comunidade da Unicamp), é o psicogeriatra Lucas Luchesi Barnes. “Sintomas de depressão, que são muito prevalentes, tiveram pouca associação com o declínio cognitivo nesta população. O que percebemos foi um grupo de pessoas com mais riscos cardiovasculares e cerebrovasculares; porém, em relação a alterações de comportamento e cognitivas, aqueles com sintomas psicóticos tinham mais chances de declínio, enquanto os com sintomas depressivos apresentaram mais chances de piora no raciocínio”, destaca Barnes.

Atenção redobrada
O psicogeriatra destaca que, nessa faixa etária, novos padrões de comportamento exigem avaliação. “Qualquer alteração nova, ou seja, comportamentos antes inexistentes, como isolamento, discurso depressivo, inatividade, impulsividade, desconfiança ou desajuste social, que surja e persista após os 50 anos pode levantar suspeita de doença neurodegenerativa e merece atenção médica”, diz Lucas Luchesi Barnes.

A atenção para as perdas cognitivas também é essencial. “Não é normal apresentar perdas cognitivas que causem impacto no dia a dia. Mesmo que seja apenas uma sensação subjetiva ou a percepção de terceiros de que houve uma mudança, como estar mais desatento ou esquecido, isso merece investigação do ponto de vista mental. A ideia de que tais perdas são normais em pessoas mais velhas não é verdade”, reforça o especialista.

Sedentarismo e alcoolismo são fatores de risco no desenvolvimento do idoso. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Fatores de risco
Em relação à prevenção, os fatores de risco incluem alcoolismo, sedentarismo e colesterol alto. “A maioria desses fatores concentra-se na faixa etária entre 18 e 60 anos e inclui o controle de pressão, diabetes e colesterol, além do combate ao sedentarismo e ao tabagismo e a correção de déficit auditivo. Estas são prevenções primárias contra a demência. Já após os 60 anos, o combate ao isolamento social e a correção de déficit visual são outros fatores que também indicam a necessidade de prevenção.”

Mas a prevenção vai muito além do consultório médico. A saúde mental na terceira idade é, muitas vezes, o reflexo direto do ambiente e, infelizmente, do descaso. 

Casos no noticiário
A TV TODODIA já noticiou dez casos de negligência, abandono, violência, maus-tratos e assassinatos de idosos em 2026, com ocorrências espalhadas por sete cidades da nossa região de cobertura.

A cronologia de crimes começou em janeiro, com um homicídio a facadas em Campinas. A violência avançou para dentro da casa em Americana, onde um homem foi preso por agredir os próprios pais. 

Em Hortolândia, a polícia registrou um atropelamento após briga de trânsito e o assalto a um senhor de 77 anos. Em Piracicaba, outro caso grave: um idoso assassinado a golpes de enxada.

Já em Nova Odessa, o helicóptero Águia resgatou um homem com Alzheimer que estava desaparecido. E em Santa Bárbara, uma força-tarefa retirou seis toneladas de materiais acumulados na casa de um morador. 

A situação se repete em Limeira, com o registro de um homem abandonado no bairro Santa Eulália e o resgate de outra vítima, agredida e largada em uma área de mata.

Sedentarismo e alcoolismo são fatores de risco no desenvolvimento do idoso. Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Vale lembrar que o Estatuto do Idoso é claro: é dever de todos, família, comunidade e poder público, assegurar o direito à vida e à dignidade. Para denunciar qualquer tipo de abuso ou violência, o principal canal é o Disque 100, que funciona em todo o país e garante o anonimato. 

Se você precisa de ajuda com a sua saúde mental, não hesite em pedir. Os principais canais de apoio emocional no Brasil incluem o CVV (Centro de Valorização da Vida), que atende pelo telefone 188. 

Também estão disponíveis os Caps (Centros de Atenção Psicossocial) pelo SUS (Sistema Único de Sáude).

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