O processo de doação de leite materno ainda enfrenta desafios relacionados à desinformação, aos mitos e às dificuldades práticas vividas por mães lactantes. Especialistas apontam que o acesso à informação e o suporte oferecido pelos bancos de leite são fundamentais para ampliar o número de doações e garantir atendimento a recém-nascidos que dependem do alimento. :contentReference[oaicite:0]{index=0}
Passo a passo da doação
Na Santa Casa de Limeira, o atendimento às mães doadoras inclui acompanhamento especializado durante todo o processo de coleta. “Ao chegar ao banco de leite, a mãe realiza a higienização das mãos e nós fazemos a paramentação adequada. Avaliamos a produção de leite e ela é acomodada para a extração. Utilizamos uma ‘bombinha’ mecânica, mas também ensinamos a ordenha manual, que é outra forma possível de extrair o leite”, explicou a enfermeira Josiane Figueiredo de Lima.
Mitos ainda dificultam doações
Segundo a profissional, um dos principais obstáculos ainda é o receio de que a doação prejudique a alimentação do próprio bebê. “Muitas pessoas acreditam que, ao doar, o leite faltará para o próprio filho. Na verdade, é o contrário: quanto mais a mãe estimula a mama, mais leite ela produz”, afirmou.
A enfermeira também destacou a importância da doação para bebês internados em UTIs neonatais. “Além de nutrir o próprio bebê com amor, precisamos lembrar que há muitos pequenos na UTI Neonatal lutando pela vida, cujas mães ainda não conseguem produzir o suficiente”, completou.
Rede de apoio e acolhimento
Especialistas apontam que o suporte emocional às mães é parte importante do trabalho desenvolvido pelos bancos de leite. “É muito gratificante, pois cuidamos da mulher na fase mais importante da sua vida. Muitas vezes, ela passa por transições hormonais e fica mais sensível; por isso, fazemos o possível para transmitir calma e segurança”, relatou Josiane Figueiredo de Lima.
A assessora técnica da Coordenação-Geral de Atenção à Saúde das Crianças, Adolescentes e Jovens do Ministério da Saúde, Renara Guedes Araujo, reforçou que a doação contínua também contribui para estimular a produção de leite. “Os requisitos básicos para ser doadora são: estar saudável, amamentar o próprio filho, ter excedente de leite e não utilizar medicamentos incompatíveis com a amamentação”, afirmou.

Projetos educativos ganham destaque
Em Piracicaba, iniciativas voltadas ao incentivo ao aleitamento materno ganharam destaque durante o Enam (Encontro Nacional de Aleitamento Materno), realizado em Campo Grande (MS).
Entre os projetos apresentados estão a “Copa do Aleitamento” e o livro “A magia do leite materno e a revolta dos bicos e latas”, desenvolvido por nutricionistas das áreas de Saúde e Educação com participação de alunos da rede municipal. “Tivemos diversos tipos de ilustração, desde desenhos e colagens até trabalhos com massinha. Entendemos que seria a oportunidade ideal para apresentar a todo o país o que estamos desenvolvendo em Piracicaba”, explicou a nutricionista Mariana de Campos Chaves Liepkan.
Participação das crianças
Segundo Mariana, o envolvimento dos estudantes ajudou a ampliar o debate sobre amamentação de forma natural e acessível. “Foi muito interessante perceber a identificação das crianças com essa história. Muitas vezes achamos que quem não foi amamentado não tem uma história com a amamentação, mas todos temos uma relação com o tema”, relatou.
Ela também citou o caso de uma criança atípica da rede municipal que conseguiu compreender o processo de desmame durante as atividades escolares. “Acreditamos que todo esse processo, do início ao fim, precisa ser humano, cuidado e amparado”, afirmou.
Importância para a saúde pública
A coordenadora do banco de leite da Maternidade Leonor Mendes de Barros, Andrea Penha Spinola Fernandes, destacou a estrutura existente no país para coleta e distribuição de leite humano.

Segundo ela, o Brasil possui dezenas de postos de coleta e processamento que distribuem milhares de litros de leite anualmente. “Se queremos um país melhor, com crianças saudáveis e redução da mortalidade infantil, o caminho é investir no aleitamento materno”, afirmou.
Debate sobre políticas públicas
Especialistas também defendem a ampliação de políticas públicas de apoio à amamentação, incluindo discussões sobre licença-maternidade. “No Brasil, a licença-maternidade é de 120 dias, mas a recomendação da OMS é o aleitamento exclusivo até os 180 dias”, destacou Mariana de Campos Chaves Liepkan.
Ela afirmou ainda que o retorno ao trabalho antes do período recomendado pode dificultar o processo de adaptação para mães e bebês.





