Dois anos depois de uma das maiores tragédias ambientais da história recente de Piracicaba, as imagens continuam vivas na memória da população. Na manhã de 7 de julho de 2024, cerca de 235 mil peixes apareceram mortos ao longo do Rio Piracicaba, formando um cenário de devastação que rapidamente ganhou repercussão nacional. O episódio provocou indignação, mobilizou órgãos ambientais, pescadores, pesquisadores e voluntários e transformou-se em um marco na discussão sobre a proteção dos recursos hídricos da região.
Embora a qualidade da água tenha sido restabelecida nas semanas seguintes, a recuperação das populações de peixes depende do ciclo reprodutivo das espécies, da recolonização natural do rio e da preservação dos habitats. Algumas estimativas de órgãos como a Cetesb (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) apontaram que a recomposição completa da ictiofauna poderia levar vários anos, especialmente para espécies de crescimento mais lento.
Natureza em colapso
Nesta data em que se completam dois anos do desastre ambiental, a reportagem da TV TODODIA voltou a navegar pelo Rio Piracicaba, com o suporte da Associação SOS Rio Piracicaba, para verificar as condições atuais do manancial. Felizmente, a cada nova piracema, o período reprodutivo dos peixes, ele renasce, se renova. Por outro lado, conforme denuncia o pescador e presidente da entidade, Gian Carlos Machado, “todos estão impunes, até agora não teve ninguém preso”, desabafa.
Navegando pelo Piracicaba, Machado relembra os primeiros sinais da tragédia, percebidos nas primeiras horas daquele domingo, dia dos 199 anos da Festa do Divino. “Eram por volta das 9h30, 10h da manhã. Veio aquela água vermelha, aquela espuma que ardia o olho, a boca, eu nem conseguia enxergar, não conseguia respirar, e começaram a aparecer os primeiros sinais dos peixes atordoados. Foi a imagem mais triste que eu tenho até hoje na minha cabeça: eu vinha cortando peixe na hélice, porque aqueles peixes estavam atordoados, eram triturados. Foi a cena mais triste que eu vi na minha vida. Não consegui dormir nos primeiros dias”, recorda.
À medida que o dia avançava, espécies de diferentes tamanhos e hábitos apareciam mortas, revelando que o impacto atingia praticamente toda a fauna aquática existente naquele trecho do rio. Um cenário considerado sem precedentes.
Nos dias seguintes, a mortandade se estendeu por dezenas de quilômetros. A correnteza transportou os peixes mortos até a Área de Proteção Ambiental Tanquã, conhecida como o “minipantanal paulista”, onde ocorreu um segundo grande episódio de acúmulo de animais mortos. Equipes da Prefeitura de Piracicaba, da Polícia Militar Ambiental, da Defesa Civil e de voluntários trabalharam durante semanas na retirada das carcaças para evitar novos problemas sanitários e ambientais. O balanço final foi chocante: cerca de 100 toneladas de animais mortos.

Apuração
As investigações conduzidas pela Cetesb identificaram que a tragédia teve origem no extravasamento de águas residuárias e mel de cana-de-açúcar provenientes da Usina São José, em Rio das Pedras, multada, posteriormente, em R$ 18 milhões. Segundo o laudo técnico, o material alcançou o Ribeirão Tijuco Preto e, posteriormente, o Rio Piracicaba, provocando uma queda brusca do pH e, principalmente, reduzindo praticamente a zero a concentração de oxigênio dissolvido na água, condição incompatível com a sobrevivência dos peixes.
O MPSP (Ministério Público do Estado de São Paulo) chegou a propor um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) à usina, que previa indenização de R$ 10 mil mais um salário mínimo mensal por 10 anos a cerca de 150 pescadores, repovoamento do Rio Piracicaba, interrupção do lançamento de efluentes, programa de monitoramento e outras ações. No total, entre multas e indenizações, o montante pago pela usina poderia chegar a R$ 50 milhões.
As diretrizes foram estabelecidas após reunião realizada em 8 de outubro de 2025, da qual participaram representantes do Gaema (Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente), ligado ao MPSP, da Cetesb, da usina, de pescadores afetados e das prefeituras de Piracicaba e de São Pedro.
Porém, conforme publicou a TV TODODIA com exclusividade no último sábado (4), a Usina São José rejeitou a proposta. A empresa respondeu ao despacho do MPSP assinado pelo promotor Ivan Carneiro Castanheiro e pelo analista jurídico José Walter Correia Tonchis, na quinta-feira (2), prazo final estabelecido pelo órgão. Com a negativa, o MPSP deverá ingressar com uma ação civil pública contra a usina.
Indignação
“Por enquanto não tivemos nenhum respaldo em nada”, denuncia o pescador Gian Carlos Machado. “Tem pessoas ainda que, além do desastre que sofreram, contraíram uma dívida, porque foi dado um crédito [pelo governo de SP], um empréstimo, que a gente vai ter que pagar. A conta chega agora em dezembro de 2026. Então, além de nos prejudicarem, ainda nos deram uma dívida.”
O desabafo traz ao debate o contraste entre a falta de uma punição efetiva para a tragédia ambiental de 2024 e a Instrução Normativa nº 26 do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), em vigor desde 2009.
Ela proíbe a pesca no Rio Piracicaba perto de barragens, corredeiras, cachoeiras, saídas de efluentes e confluências de rios, com previsão de multa, apreensão de peixes e embarcações, responsabilização criminal por crime ambiental, com possibilidade de detenção, conforme o caso.
“Essa é a pergunta que a população piracicabana queria estar fazendo agora. Por que um pescador é punido, multado, tem o equipamento apreendido e uma usina, uma empresa que causou um desastre desse tamanho, não pagou por isso? É isso que choca a população piracicabana”, conclui Machado.
Outro lado
Procurada para comentar a recusa do TAC com o MPSP, a Usina São José não se manifestou. O espaço segue aberto.




